quinta-feira, 16 de abril de 2015

Xupinhado do blog de minha irmã, vai o tedto de Maria Lacerda



A palavra "feminismo", de significação elástica, deturpada, corrompida, mal interpretada, já não diz nada das reivindicações feministas. Resvalou para o ridículo, numa concepção vaga, adaptada incondicionalmente a tudo quanto se refere à mulher. Em qualquer gazela, a cada passo, vemos a expressão "vitórias do feminismo" – referente, às vezes, a uma simples questão de modas! Ocupar uma posição de destaque em qualquer repartição pública, cortar os cabelos "à la garçonne", viajar só, estudar em academias, publicar um livro de versos, ser "diseuse", divorciar-se três ou quatro vezes, pelas colunas do "Para Todos", atravessar a nado o Canal da Mancha, ser campeã de qualquer esporte. – tudo isso consiste "nas vitórias do feminismo", vitórias que nada significam perante o problema da emancipação integral da mulher.
 A verdadeira emancipação é posta de lado
É uma tática bem manejada. Enquanto as mulheres se contentam com essas "vitórias", a sua emancipação é posta de lado ou nem chega a ser descoberta pelos tais reivindicadores de direitos adquiridos... E essas reivindicações não se podem limitar a ação caridosa ou a um simples direito de voto que não vem, de modo algum, solucionar a questão da felicidade humana e se restringirá a um número limitadíssimo de mulheres. Aliás, quando os homens sérios retiram-se, num ostracismo voluntário, dessa política de latrocínios oficializados, desse bacanal parasitário, desse despudor em se tratando dos negócios públicos; quando se decreta, positivamente a falência, o descrédito do parlamentarismo em toda uma sociedade em plena decomposição, – é agora que a mulher acorda e sai correndo atrás do voto, coisa que deveria ser reivindicado a cem ou duzentos anos atrás... o supõe, ingenuamente, estar cuidando dos interesses femininos ou dos interesses sociais.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Cartas Lânguidas IX

IX.Saudade é uma palavra brasileira

Nos separamos. Peguei um avião, deitei sobre suas asas, descansei-me de tudo. Passei semanas maturando-me à cama, de pernas para cima e cabeça para baixo, e girando e contornando e contorcendo-me.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Cartas Lânguidas VIII

VIII. O que ela só sabe ser
Eu já disse o quão bonita ela é. Poderia dar detalhes estéticos apurados e analisar a forma como ela aparece no mundo; seus trejeitos, a forma como anda, senta, move-se, a maneira como tem em seus cabelos loiros e repicados por minhas mãos, em ondulações alucinantes, toda sua feminilidade freudiana, o jeito que geme quando se espreguiça e o som de sua voz quando se propõe a pedir que faças algo por ela. Não chegaria a ilustrá-la de forma minimamente justa.
Sua mãe contava-lhe uma fábula sobre duas borboletas. Uma era amarelinha e pálida, frustrada em sua aparência franzina. A outra, ah! A outra era duma gama de cores extravagante, frascária, digna da fascinação de qualquer um que em sua presença.
Gabava-se a borboleta colorida à amarela, que se via farta de inveja e auto-comiseração de toda a sua ordinedariedade perante a borboleta estrambótica.
Então um dia parece uma lagartixa faminta e, enxergando somente a borboleta colorida, abocanha-lhe a vida num golpe, encerrando toda sua estróina existência, deixando de lado, ali, imperceptível, a borboletinha de cor tão vulgar.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Cartas Lânguidas VII

VII. FÓÓÓN, "Parabéns! Viva! Viva você!" FÓÓÓN!
Essa sou eu, assoprando num tipo de corneta amarelo e verde, largada ali pelas torcidas nos malditos jogos da Copa.
É a primeira vez que eu encosto a boca nessa buzina infernal, e é para infernizá-la. Agora já não me é certo a razão primordial de meu ataque infantóide; se foi depois que ela me disse que o chip de celular q usávamos pertence a ela graças à sua capacidade de ser folgada, como eu apontara minutos antes, ou se em detrimento do ataque frontal direto que me desferiu, à sua vez, dizendo-me que o que ela havia conseguido não era fruto do "dinheiro de papai e mamãe", como seria comigo.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Cartas Lânguidas VI

VI. A Máscara no espelho

Enquanto lavo minha louça suja, penso que há outras louças a serem lavadas, dentro da pia, desde a última vez que eu lavei a minha louça suja e as outras que lá já jaziam. Já.
Daí eu penso se vou lavá-las ou não, além de minha. Penso, novamente, desta vez sobre a razão de os causadores antecessores desta que se a mim apresenta não pensarem como eu, quando vão desfazer-se de suas louças.
Daí penso qual é o problema deles, de não pensarem como eu penso. Sobre as nossas louças sujas e outras tantas coisas mais.
Só que daí, não cessando de pensar, outra vez penso, e desta vez eu me calo por alguns instantes; será se o problema nas pessoas não pensarem como eu não seria,  pensando melhor, um problema meu, justamente porque eu não penso como elas pensam?
Ao fim deste vago pensar, acabo a louça suja, minha e de outros, pela provavelmente septuagésima vez, só hoje.