Havia cinco anos, quase, que pertencíamos ao desejo um do outro. Mais do que isso, habitávamos nossas mentes e consumíamos nossos corpos.
Eu construía uma casa para nós.
E você ateava fogo nela, se esfriava e eu, somente só, podia perceber que tudo queimava e tu gelava, quando nada mais podia fazer, a não ser colocar-me casa afora e assisti-la ruir.
Não podia assisti-lo, porém.
Quando esfriava o fogo que alimentava a sustentação de nossa morada, era para erguer seu forte gelado com outros calores, outras temperaturas. Erguia aos cubos de gelo teu frágil castelo, e me dizia: afasta-te, pois teu fogo destruirá meu novo castelo de gelo. Obrigava-me a passar, como rajada.
Se sou fogo, és outono. Sempre chacoalhando folhas, secando árvores (corpos), soprando forte, acometendo a tudo, indiscriminada e discretamente. O outono, no entanto, é apenas abertura. Uma hora há de acabar. Não tem mais o que secar. E torna a esquentar. O degelo chega.
Quando teus castelos fatal e impreterivelmente ruíam, você buscava o calor novamente. Como que uma figurinha passiva, uma folha que só pode cair, no outono. Te acolhi, tantas vezes, chamuscando em ilusão. Construí novas moradas uma, duas, três vezes.
Como uma criança em loja de brinquedos, você quis tudo. É uma pena que quem não se compromete com nada, também não tem nada.
Doeu sentir o frio dentro dos meus ossos. Dar aqueles três passos para fora daquele casebre que se tornara nós. Com os pés na lama ao redor dele. Afundando e querendo retornar.
Olhei para trás e já não havia mais porta para entrar. É claro, você nunca quis cuidar da nossa casa. O outono vira inverno, sem aquele familiar calorzinho. Sem o mormaço marrom.
Sabe quando você encara a chama ardendo e pode enxergar formas e figuras se criando e morrendo rapidamente, naqueles movimentos?
A gente era aquela ilusão. Passageira e recorrente. Doeu tentar agarrá-la. E eu chamei de amor. Quando parei, confundi tudo, e não-dor foi (pareceu) tortura. Nunca mais arder tentando agarrá-lo e perdê-lo (nunca tê-lo).
A casa ruída e tu ausente. Impossível. A real é que não estava lá. O outono é ilusão para o calor. Adeus, confusão.
(dos estágios do luto, estou na fúria)
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
Prelúdio
Comecei um projeto, quando em viagem. Chama-se "cartas lânguidas", até segundo aviso. É sobre a companhia. Sobre o olhar. Sobre o afeto.
Especificamente para (e) com uma determinada companhia na minha vida que hoje já se afastara. Toda intimidade está fadada a ser expurgada, quando falamos de mim.
Esta havia sido a primeira vez que me propusera a escrever-lhe. Nunca entregara. Fizera um pôster que acabou se tornando assustador demais, associado ao texto. Pintei de preto o texto, e pendurei o desenho na minha parede.
Toco o projeto lentamente.
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domingo, 13 de abril de 2014
Ansie-da-da-de
A ansiedade é uma fome que nunca cessa. Como uma boca de dentes afiados que não diferencia o preto do branco. Justíssima na sua insaciedade, quer mastigar tudo o que se encontra entre os meus limites e os seus. De fora de si para dentro de mim, conduzindo-me sem pressa à implosão, do fundo da garganta até as pontas dos dedos, do nariz, as pupilas e aquele ponto atrás dos joelhos que até então servia só para dar cócegas.
Vou preenchendo-me de tantas outras coisas para não me ver por ela consumida e, no medo de me perder me faço perdida por entre os estranhos e essa fome terrível dentro de mim.
Vou preenchendo-me de tantas outras coisas para não me ver por ela consumida e, no medo de me perder me faço perdida por entre os estranhos e essa fome terrível dentro de mim.
sábado, 12 de abril de 2014
Pequeno dicionário de coisas boas
resiliência | s. f.
re·si·li·ên·ci·a
(inglês resilience)
substantivo feminino
1. [Física] Propriedade de um corpo de recuperar a sua forma original após sofrer choque ou deformação.
2. [Figurado] Capacidade de superar, de recuperar de adversidades.
re·si·li·ên·ci·a
(inglês resilience)
substantivo feminino
1. [Física] Propriedade de um corpo de recuperar a sua forma original após sofrer choque ou deformação.
2. [Figurado] Capacidade de superar, de recuperar de adversidades.
Perseguido
Em Recife, um poeta observava um gato com seu jeito social-animalesco. O artista encantara-se e escancarava-se. Atacava-lhe por todos os lados, e a presa felina só podia sentir-se acometida. Por sorte, o poema é uma arma não-letal, e seus efeitos colaterais não passaram de um pouco de auto-amor, admiração e até admiração invejosa.
Este poema me encanta pelo criador e pelo muso.
Este poema me encanta pelo criador e pelo muso.
Dia, há. Logo.
É avistado um futuro embalado para presente, feito de passados. História, pensam que seja síntese de começo, meio e fim. O espaço do abstrato é vazio para encher de fantasias, e o espaço concreto está já cheio demais para elas...
Solto e doido, feito o criador
Esses dias um amor sentou-se em frente ao meu notebook aberto, enquanto tocava alguma doidura como Raúl ou Vinícius cantado. Ele me acompanhava enquanto arrumava um pedaço da vida. Com ares de quem partia sem despedida. Entre dor de saudade pré-concebida e aconchego de nostalgia ainda-por-vir, ele deixa esse fluxo de pensamentos, um jogo de linguagem solto de doido, como só ele poderia ser. Cheios de memórias e palavras-chave, e com muito mais non-sense e coisas por descobrir.
Guardo aqui, para futuras consultas, embaçadas de saudade.
Guardo aqui, para futuras consultas, embaçadas de saudade.
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